Sermão do Fr. Bento da Trindade para o dia das quarenta horas, séc. XVIII

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Este sermão foi transcrito do documento original disponibilizado digitalmente no sítio do Arquivo da Torre do Tombo, sob o código PT/TT/RMC/B-E/001/6354. Inclui despacho da Mesa para imprimir e voltar a conferir de 19 de Julho de 1784, mas não se sabe ao certo qual é a data exata do Sermão, mas somente que foi durante o século XVIII e que foi pregado na Catedral da Bahia. Segue a transcrição:

 

Sermão do primeiro dia de quarenta horas, pregado na Sé da Bahia pelo Padre Mestre Doutor Frei Bento da Trindade, Opositor às Cadeiras de Teologia da Universidade de Coimbra, Qualificador do Santo Ofício, e Examinador das três Ordens Militares.

Non in comissationibus et ebrietatibus; non in cubilibus et impudicitiis; sed induimini Dominum Iesum Christum. – Não vos entregueis aos exessos de comida, e bebidas; Não aos da impudicícia, e da impureza; mas vesti-vos da graça de Jesus Cristo. I Paul. Ad. Rom. 13, 12.

Antiga Sé da Bahia

Esta era a breve exortação, que São Paulo dirigia aos primeiros fiéis habitadores de Roma. Querendo apartá-los dos excessos, que um desgraçado resto de seu abjurado gentilismo deixava entrever ainda nos seus costumes, o Apóstolo lhes lembrava as novas obrigações da sua vocação ao Evangelho, a sublime santidade do Cristianismo que haviam abraçado, e a grande incompatibilidade de suas desordens com a sua profissão. Persuadiam-lhes vivamente a frugalidade nas suas mesas, a isenção de todas as ações de impureza, e de todos os espetáculos, e divertimentos semelhantes aos dos Gentios. Renunciai, dizia ele, todas as obras das trevas[1], e vesti armas de Luz. A noite de vossas superstições, e impiedades é passada[2] na renúncia solene, que fizestes no Batismo, do mundo, e de suas pompas. Um dia mais luminoso, e mais sereno se seguiu às vossas antigas trevas. Outras festas mais augustas, outros prazeres mais doces, outra alegria mais sólida, outra mesa mais deliciosa, mais Santa, mais Divina, deve interessar vossos cuidados. Não são já os divertimentos profanos, e gentílicos, que devem recrear o vosso espírito, não os indignos excessos de comidas, e bebidas, não as ações vergonhosas da impudicícia, e da Luxúria; mas os inocentes prazeres da virtude, as doçuras verdadeiras da graça de Jesus Cristo, e as delícias inefáveis de sua sagrada Mesa. Non in comissationibus et ebrietatibus; non in cubilibus et impudicitiis; sed induimini Dominum Iesum Christum.

            Mas se uns erros, ou abusos escapados talvez mais à ignorância do que à malícia daqueles primeiros Fiéis, excitavam tão vivamente o zelo do Santo Apóstolo; que seria se ele ivesse observado a dissolução dos nossos divertimentos? Qual seria o seu horror, e o seu espanto, se ele tivesse visto nesta terra os excessos praticados nestes dias? Que diria, se tivesse visto o Cristianismo expirante, e quase abolido entre nós? A modéstia e a decência proscritas, e o sexo antes depositário do pudor, rompendo todos os diques da retenção, e do recato? Que diria, se ele tivesse visto os sexos confundidos, encobrindo em seus rostos a imagem, e semelhança de Deus, para tomar as Liberdades da mais impudente idolatria? O demônio atraindo a seu partido quase toda uma Cidade, que se atribui a qualidade de Cristã? Usurpando ao Altíssimo as adorações devidas; e opondo à Santa quarentena do jejum, e penitência, que vai a principiar, outra quarentena ímpia, que acaba[3], de abominações, e de escânda-los? Que diria, (?)sena-solenidade deste Tríduo, que nos devia dispor para entrarmos dignamente nos dias de salvação, ele visse os nossos Templos desertos, as santas solenidades sem concurso, Jesus Cristo abandonado, e quase solitário no Divino Sacramento, sem que a sua presença contenha tantas desordens, ou acabo de atrair tantos desgraçados desertores de sua Mesa, e do seu Templo? Que diria… mas eu me encho de horror, e não me atrevo mais a introduzir a S. Paulo no meio de uma dissolução tão excessiva. Que diria pois, eu não digo já o Santo Apóstolo, mas um gentio, um infiel, um estrangeiro à vista disto? Que? São pois estes, diria ele, os divertimentos de um Povo, que se preza de Cristão? E que diz ser a nação especializada de Deus, Povo de escolha, e de benção, gente Santa? Genus electum, populus in acquisitionem, gens santa[4]? É este aquele Povo, que nos chama infiéis? Que Insulta os nossos ritos, costumes, e nos exagera a sua probidade, a sua ética, e as suas virtudes em preferência aos mais Povos? É este, enfim, o Poo que adora a um Deus crucificado, que crê a sua presença no Sacramento do Altar, e que diz que o recebe nas espécies de pão? E que? Deixa ele ao Deus a quem adora para se recrear com o demônio, e com o mundo, que renunciou em seu Batismo? Deixa uma Mesa, que confessa ser Divina, e em que recebe o seu Deus, por uma mesa profana? Que contradição tão monstruosa! Que incompatibilidade tã horrível de máximas, costumes! Não, o Sol não ilumina algum Povo mais incoerente e dissoluto. Os climas, e os Países mais agrestes, as Seitas mais bárbares, os Povos mais dissolutos, não excedem a dissolução destes Cristãos; os bosques, e as brenhas mais incultas da Ásia, e da África não produzirão já mais habitadores… Suspendamos, Senhores, estas tristes reflexões, vós vos ofendereis talvez; mas permiti pela glória do Senhor, que vos faça ver neste discurso, todo o Terror de uma desordem tão escandalosa, ultrajante à nossa profissão, e Cristandade. Para isto eu não tenho mais que repetir-nos as palavras do Apóstolo, elas bastaram para converter a meu Padre Santo Agostinho; faça o Céu que elas produzam em algum de nós o mesmo efeito. – Não vos entregueis nestes dias aos criminais excessos da gula, e da impureza – Non in comissationibus et impudicitiis – Mas buscai a graça de Jesus Cristo, que hoje se nos oferece na mesa do Sacramento – sed induimini Dominum Iesum Christum – Eis aqui pois o meu assunto: A preferência infinita e incomparável das delícias da graça de JESUS Cristo no Divino Sacramento, sobre os falsos prazeres que o mundo nos oferece nestes dias. – Exurge in adjutorium meum Domine Deus salutis mea.       (?)princípio.

Inimigo cruel das nossas almas, cujo nome odioso não merece proferir-se, soberbo, (?)pretendido rival da glória do Onipotente,  tu tens triunfado enfim nestes dias desgraçados. Eis aí uma bem grande colheita, que nós tivemos a desgraça de por nas tuas mãos. Os quarenta dias passados de desordem te compensam largamente dos golpes que se te preparavam nos quarenta dias futuros da nossa reconciliação e penitência. Demos-te enfim tantos dias para exercitares sobre nós a tua escravidão, quantos a Igreja nos pede para nos pede para nos poder livrar dela. Tiveste enfim teu tempo. Recebemos de ti as Leis que ti nos quiseste impor. Entregamo-nos à tua descrição. Tens sido enfim bem obedecido, bem servido. Legislaste, venceste, triunfaste.

A Bahia (por que enfim, ó meu Deus, para que dissimular uma verdade, injuriosa sim e humilhante; mas que tem sido tão escandalosa, e tão notória?), a Bahia se deixou abandonar aos maiores excessos. A prostituída impudente de que fala o Evangelista Profeta no seu Apocalipse[5] fingindo abrir seu rosto, se mostrou mais descarada, e fez beber o veneno da taça dourada, que traz nas suas mãos, os desgraçados cúmplices da sua impudicícia: A desenvolta Babilônia parece que quis encher a medida de seus crimes: O Israel do Senhor adotou todas as abominações da Samaria, e dos desses estrangeiros Toda a Carne parece ter corrompido seus caminhos[6]. A abominação anunciada no Evangelho[7] quase se quis elevar no Lugar Santo. Saiu da Filha de Sião todo o seu Lustre[8]. Viram seus inimigos a sua ignomínia, e o seu opróbrio, e fizeram zombaria de suas solenidades[9]. Falemos sem figura Senhores, e tiremos de uma vez a máscara à desenvoltura , e à impiedade. Abandonou-de o Povo aos maiores excessos da Liberdade, e da desordem. Rompeu a Libertinagem quase todos os obstáculos da modéstia e da virtude. Desprezaram-se não só as Leis do Evangelho, mas as da probidade, e da decência. Tudo tem sido tolerado nests dias. Chegaram as Cerimônias da Igreja a dar assunto a espetáculos ridículos. Viram-se os Templos desertos nos dias de suas festas enquanto a extensão de seus átrios apenas podia abranger a multidão de concorrentes de um e outro sexo. Viu-se (Ó meu Deus, e poderei eu dizê-lo sem cobrir de confusão estas sagradas paredes?), viu passar com pompa, e solenidade o Divino Sacramento[10] entre as extensas alas de expectadores mascarados, e de mulheres manifestas em traje de outro sexo sem disfarçarem o próprio.

Inaudito excesso de irreligião, e impiedade, tu não eras ainda conhecido entre nós. Os séculos precedentes ignoraram totalmente este novo modo de insultar a presença real de Jesus Cristo no Divino Sacramento. No seio da Cristandade não se havia observado um semelhante espetáculo. Nossos Pais não tinham visto o Corpo de Jesus risto rodeado de adoradores com uma máscara ridícula no rosto. Esta nova impiedade estava só reservada para comparecer em nossos dias. E vós, adorado Redentor, vós não haveis talvez sofrido ainda nesse Divino Sacramento um ultraje semelhante. Na vossa Pão tínheis tolerado, é verdade, aos algozes, que vos cobriam o rosto[11], para vos oferecer adorações irrisórias; mas hoje por uma contradição não menos ímpia os mesmos que vos adoram com outra igual reverência cobrem ridiculamente o seu rosto, e tem o sacrílego arrojo de comparecer desta sorte, não só diante de vós, mas ainda junto a vós. Céus, como pudestes sofrer um semelhante atentado? Astro brilhante do dia, como não escondeste então as tuas Luzes!

Mas não Senhores, não espereis aqui de mim,  que eu levante a minha voz para clamar altamente contra este horrível desacato. Eu me não sinto com forças. A minha vos desfaleceu. O sangue se me gela nas veias, e euonfesso Senhores, que me envergonho, e contundo de vos recordar aqui verdades tão odiosas. Ocultemos antes esta nossa ignomínia em um eterno Silêncio. Não saibam os infiéis estas tristes anedotas, e este humilhante opróbrio da nossa Religião e Cristandade. Mas de que vale ocultar uma verdade tão notória? E por mais que quardemos silêncio nestes criminais abusos, não grita o escândalo mais do que todas as nossas invectivas? Que? Podemos nós dissimular a nossa dor vendo ao Divino Sacramento ultrajado deste modo? Podemos ver sem horror os nossos Templos desertos na hora dos Sacrifícios, enquanto as ruas, e praças se acham tão cheias de ociosos de um, e de outro sexo? Podemos ver tanta repugnância, e dispersão nesta solenidade augusta, e tanto gosto e concurso na ociosidade, nos divertimentos, nas danças? E que danças, ó Deus meu! Podia o inferno exalar tanta infecção entre nós? O demônio com todos os seus artifícios poderia descobrir um meio mais eficaz para inspirar todas as abominações da impudicícia, e para banir de entre nós todo o resto da decência, e do pudor? Poderia jamais esperar-se que chegasse a este ponto a Liberdade do sexo tímido, covarde, piedoso? Ao mesmo tempo este é o sexo mesmo, que (?)afeta nesta terra envergonhar-se de ir de dia aos nossos Templos, e de comparecer nas Santas solenidades da Igreja. E que Senhores! Tanto pejo para buscarem a Deus no seu Templo, e tanta dissolução e Liberdade em se manifestarem em público em semelhantes espetáculos!

Da Madalena, diz engenhosamente meu Padre Santo Agostinho, que soube buscar a salvação em Jesus Cristo com uma Santa impudência[12]quaesivit pia impudentia sanitatem – Por mais que a sua qualidade e o seu sexo parecesse condenar a piedosa Liberdade de sair só de sua Cara aos olhos de toda a Jerusalém para ir buscar ao Salvador na Casa do Fariseu; por mais que a ocasião de um convite parecesse intempestiva, e os assistentes malignos nos seus juízos; esta Santa pecadora não repara em coisa alguma, sufoca o seu pejo natural, e se eleva sobre os sentimentos vulgares, para procurar santamente resoluta a sua salvação e o seu remédio – quasivit pia impudentia sanitatem. – Hoje porém as pessoas do seu sexo, nesta terra, por uma contradição bárbara, ridícula, extravagante sufocam o justo pejo que lhes deviam inspirar as indecentes liberdades, e se envergonham impiamente de ir de dia aos nossos Templos. Mais diligentes, Deus meu, para comparece nos anti-Cristãos divertimentos, que nas santas solenidades da vossa Igreja. Mais sensíveis aos insípidos prazeres dos sentidos do que aos doces atrativos da vossaamável presença. Mais interessadas enfim nos excessos da gula e intemperança de suas mesas do que nas delícias inefáveis da mesa da Eucaristia.

Ah Senhor, quando vós instituístes este Divino Sacramento, o compêndio de todas as maravilhas do vosso amor, esperáveis vós experimentar tanto fastio, repugnância nos vossos Filhos para vos assistirem e receberem neste sagrado banquete? Esperáveis achar-vos abandonado no vosso Trono desconhecido, e rejeitado por aqueles mesmos por cujo amor obrastes tantos excessos? Esperáveis ver-nos entregues nestes dias aos excessos da gula, e da intemperança, enquanto vós nos ofereceis nesse adorável Sacramento a vossa Carne, o vosso Sangue, para nos nutrir docemente? E são, contudo, estes os vossos Filhos, o vosso Povo fiel, a vossa amada Conquista! – Haeccine redis Domine popule stulte et insipiens[13] – É pois assim que tu correspondes ao teu Deus, povo ingrato e insensato? Assim lhe pagas a fineza de te buscar, de te assistir, de te nutrir, de te amar com tanto excesso no Divino Sacramento? Ah! Um Deus exposto, e manifesto às vossas adorações não vos merece mais amor, mais atenção? Podestes dar ao mundo os quarenta dias passados, e não podeis dar ao Senhor quarenta horas de culto neste tríduo. A sua real presença não vale acaso o sacrifício de três dias de recolhimento, e de abstinência? Não tem a sua presença, e a sua graça alguns atrativos para vós? O seu sagrado banquete não excitará em vos mais do que náusea, e fastio?

Ide pois, Cristãos ingratos, esconder longe da presença do Senhor a vossa ingratidão. Ide preencher a medida dos vossos crimes. Ide acrescentar mais estes três dias aos quarenta passados da vossa dissolução. Ide alegrar-vos tristemente nesses recreios pagãos; mas levai convosco aquela terrível sentença do Senhor – ai de vós os que vos alegrais agora, tristemente à despesas da virtude; porque chorareis deveras algum dia – vae vobis, qui ridetis nunc: quia lugebitis[14] – Vinde vós na fala destes ingratos, ó verdadeiros Cristãos, vinde gozar aqui da presença do Senhor, e saciar-vos das torrentes de delícias da sua Divina mesa. Vinde desagravar a Jesus Cristo dos insultos que recebe dos ímpios neste tríduo, e dar-lhe um claro testemunho da vossa Fé, e do vosso amor. Vós aqui achareis no sagrado banquete outros prazeres mais sólidos, outro alimento mais doce, outras delícias mais puras, mais confortantes, do que o mundo pode dar-vos. Que vantagem para vós ser convidados à mesa do Bom Senhor com preferência a tantos outros! Que felicidade, gozar da sua presença, entrar em sua amizade, e recebê-lo nos vossos corações.

Ah quanto vós sois venturosos, dizia antigamente Moisés ao povo de Israel, quanto vós sois venturosos na proteção do Senhor que vos assiste no Tabernáculo? Quanto sois privilegiados entre todas as Nações do Universo nos benefícios e prodígios com que vos especializa e favorece! Considerai todos os Povos da terra, e vede se há algum tão favorecido de Deus, que tenha umas cerimônias tão augustas umas festas tão Divinas, e umas Leis tão adoráveis, e tão Santas, como as que eu hoje vos proponho – quae est alia gens sic ínclita, quae habeat ceremonias iustaque iudicia, et Legem, quam ego propono hodie?[15]  Como querendo dizer-lhes: Vós acabais de sair dos ferros do Faraó e de seu jugo duríssimo. O Senhor vos libertou com mil prodígios na força vitoriosa de seu braço. Ele iluminou o vosso especializado continente enquanto sepultou ao resto do Egito em escuríssimas trevas. Tem-vos conduzido sempre como pela mão no deserto: precede a vossa marcha na coluna viajante. Nutre-vos de um pão celestial e de uma água milagrosa: assiste-vos no Tabernáculo; protege as vossas Tribos no asilo da Arca Santa: está no meio de vês, e se faz singularmente o vosso Condutor, a vossa proteção, o vosso Deus. Comparai o vosso estado presente com o que a pouco deixastes, e reconhecei a preferência destes dias luminosos sobre os tempos obscuros da vossa escravidão. Comparai os ritos abomináveis dos Egípcios com as nossas Cerimônias; as suas festas impuras com as nossas Solenidades; as suas viandas insípidas com as delícias do maná; as suas horríveis divindades como Deus dos nossos Pais, e reconhecendo a preferência infinita desta felicidade sobre aquela desgraça, vede se há um toda a terra algum povo tão feliz, alguma religião tão Santa, algumas Leus, ou Cerimônias tão augustas como as que hoje contemplai – quae est alia gens sic ínclita, ut habeat ceremonias.

Augusto Legislador, Profeta Santo, extendei as vossas vistas até nós. Entrai hoje nos nossos Templos, observai os nossos mistérios, e reconhecei a incomparável preferência dos Cristãos sobre o Povo de Israel nas augustas cerimônias de nossa solenidade, nas Leis, e nos benefícios de Deus. Aparecei hoje aqui, e vós vereis ao Senhor executar aqui mais prodígios de amor no breve espaço de quarenta horas do que praticou antigamente nos quarenta dias que vos demorou sobre o monte; nos quarenta anos que conduziu a Israel pelo deserto, e mesmo nos quarenta séculos, que precederam a instituição daquele adorável Sacramento. Vos não achareis aqui já o Tabernáculo portátil, a Arca da Aliança, a nuvem caliginosa, o maná figurativo; mas achareis com infinita vantagem o espírito de significação dessas antigas figuras. Não achareis ao Deus majestoso de Sinai que faz-se conhecer sua presença ao povo aterrado com os raios e trovões, que fazem tremer o monte, ou com o fogo subterrâneo em que abrasa aos ímpios. Mas achareis a um Deus todo amor, todo doçura, que se faz pessoalmente presente às nossas adorações, que se mostra sem terror, que se familiariza sem reserva, e se dá sem distinção aos que o querem receber: um Deus, que nos nutre de sua Carne e de seu sangue, que entra nos nossos Corações, que se une intimamente a nós mesmos, que nos ama como Pai, que nos honra com a qualidade de seus Filhos, que nos comunica os seus dons, e a sua mesma Divindade. Um Deus que vem pessoalmente livrar-nos da nossa escravidão, que ilumina ele mesmo as nossas trevas, e acha as suas delícias em assistir entre nós. Ah! Que prodígio de amor e de Bondade! Verdadeiramente que não há alguma nação tão feliz, e gloriosa, que tenha suas divindades tão unidas a si como se une a nós o nosso Deus. – Non est alia natio tam grandis, quae habeat deos appropinquantes sibi, sicut Deus noster adest[16].

Não invejeis pois, Cristãos a felicidade do antigo Povo a quem o Senhor nutriu de Maná no deserto, nem a dos antigos Patriarcas, e Profetas a quem o Senhor comunicou mais abundantemente as suas luzes. Não invejeis o privilégio de Jacó, que o teve em seus braços[17], o de Moisés que o comunicou sobre o Monte[18]. Vós aqui gozareis outra familiaridade, outra doçura, outra abundância de graças incomparavelmente maiores. Não só comunicareis ao Senhor como Moisés, não só o tocareis como Jacó; mas o recebereis dentro de vós, e vos unireis intimamente a ele. – Ecce tibi conceditur non solum videre, et tangere, sed intra te sumere[19].

Atual Catedral Basílica de Salvador. Créditos: Osman Said, Flickr.

 

Buscai pois ao Senhor em quanto o podeis achar. Ah! Nestes dias desgraçados em que todos o abandonam, e em que o demônio lhe disputa tantas almas: quando os ímpios multiplicam contra ele os seus ultrajes então é que lhe devemos especiais homenagens, e serviços. Demos pois ao Senhor um testemunho manifesto de nossa fidelidade, isto é o mesmo JESUS Cristo que parece convidar-nos como em outro tempo a seus Discípulos; eis-me aqui reduzido só a vossa companhia, e assistência, dizia ele, esta é toda a porção de assistentes que me resta de um povo tão numeroso. Todos os mais me abandonaram, e se apartaram de mim, por ventura quereis vós também seguir o seu mau exemplo, e deixar-me como eles? – Nunquid et vos vultis abire?[20]

Povo Cristão, eis aqui pois os tristes dias em que o vosso Bom Senhor se acha quase só e abandonado de toda esta Cidade: ele se acha presente naquele adorável Sacramento só com uma pequena porção de assistentes; mas sereis vós tão desgraçados, que o queirais também deixar, e tomar o partido do mundo, e do demônio contra ele? – nunquid et vos vultis abire? – Oh! E que feliz ocasião de vos distinguir diante do vosso Deus, e de merecer a sua graça, e as suas recompensas! Que merecimento, e que glória para nós o consagrar estes três dias no desagravar por nossa fidelidade, e assistência da perfídia ingratidão dos maus Cristãos? Com que doce complacência nos veria Jesus Cristo entregues à Oração, e à Lição de um livro devoto nestas noites desgraçadas que tantos empregam em o ofender? Que espetáculo tão agrdável aos olhos do Senhor se algum dos que me ouvem se quisesse resolver a confessar-se e comungar, e prevenir o Santo tempo da quaresma com uma antecipada penitência!

Meu Deus do meu Coração, e que pouco é o que vós hoje me pedis em comparação do muito que vos devo? Que curto espaço é o de três dias de exercícios Cristãos em comparação de uma eternidade de glória que vós me prometeis se os aproveito bem, ou uma eternidade de tormentos a que me vou arriscar se os perder? Que vem a ser quarenta horasde recolhimento, e de oração por mais de quarenta anos que tenho passado em ofender-vos? Ah Senhor! Que [x] possa eu eternizar este breve espaço de tempo para o empregar todo em vos assistir, em vos servir, em vos amar. Eu vou pois, Senhor aproveitar esta comutação tão vantajosa; eu me sacrifico todo ao vosso serviço e ao vosso amor nestes dias, para que vós me compenseis com abundância de graça, com eternidade de glória.

Assim seja.


[1] Ad Rom. 13. 12.

[2] Ibd.

[3] Tinham acabado no dia antecedente, quarenta dias de máscaras.

[4] Ep. I. Petr. 2. 9.

[5] Apoc. 17. 2.

[6] Genes. 6. 12.

[7] Math. 24. 15

[8] Tenum. Thren. 1. 6. (?)

[9] Ibi. 7.

[10] Na procissão do Santíssimo Sacramento da Vitória

[11] Marc.14 65.

[12] I. Aug. Lib. 50. Nom. 23.

[13] Deuter. 32. 6.

[14] Luc. 6. 25.

[15] Deuter. 4. 8

[16] Deuter. 4. 7.

[17] Genes. 32. 26.

[18] Exod. 20.

[19] S. Ioan. Chris. Hom. Ad populum.

[20] Evang. Joan. 6. 8.

Breve de Bento XIV aos Arcebispos e bispos do Estado do Brasil a respeito da escravidão dos índios e violências que lhes faziam, 1746

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Este documento encontra-se arquivado e disponível digitalmente no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa, sob o código PT/TT/AJCJ/AJ001/00001. A linguagem foi adaptada para a atual, enquanto a pontuação foi mantida. Neste Breve, o Papa Bento XIV reafirma a condenação à escravização injusta de índios no Brasil, fulminando-os com a excomunhão latae sententiae. O documento original em Latim foi traduzido e mandado publicar pelo bispo do Grão-Pará, D. Miguel de Bulhões. Data de 20 de dezembro de 1746. Segue a transcrição:

DOM FREI MIGUEL DE BULHÕES, da Ordem dos Pregadores, por mercê de Deus, e da Santa Sé Apostólica, Bispo do Grão-Pará, do Conselho de S. Majestade Fidelíssima, &c. fazemos saber, que informado o Santíssimo Padre Bento XIV, que felizmente governa a Igreja de Deus, das impiedades, e injustiças, com que eram tratados os Índios pelos habitantes das Índias Ocidentais, e Meridionais, os quais, até esquecidos das próprias Leis da humanidade, não só maltratavam os ditos Índios com atrozes injúrias, mas até lhes chegavam a tirar a liberdade, reduzindo-os injustamente às rigorosas condições do Cativeiro; de que se tinha seguido o lastimoso efeito de abominarem os mesmos Índios a conversão para a nossa Santa Fé: Para remediar tão perniciosas desordens ao bem comum da salvação daquelas Ovelhas, que pela sua mesma barbaridade, e ignorância se faziam mais atendíveis às suas paternas providências, expediu aos Prelados Diocesanos do Brasil, e mais Conquistas, sujeitas aos Domínios do Nosso Augusto Monarca, a Bula, e Constituição, que é do teor seguinte.

Aos Veneráveis Irmãos Arcebispos, e Bispos do Brasil, e dos outros Domínios, que o Nosso Caríssimo em Cristo Filho João, Rei de Portugal, e dos Algarves, possui nas Índias Ocidentais, e na América.

BENTO PAPA XIV.

            Veneráveis Irmãos, Saúde, e Benção Apostólica.

ImageA Imensa Caridade do Príncipe dos Pastores JESUS Cristo, que veio ao mundo, e se entregou a si mesmo pela Redenção do Gênero humano, para que os homens alcançassem a vida eterna; nos obriga a que, fazendo no mundo as suas vezes, posto que destituídos de merecimentos, nos inflamemos naquela mesma ardentíssima Caridade, que é a todas superior, para procurarmos com todo o desvelo pela nossa vida não só pelos Fiéis Cristãos, mas ainda por todos os homens em geral. E suposto que em razão da suprema administração da Igreja Católica, cometida às nossas débeis forças, nos vejamos obrigados a governar desde Roma, pelo costume, e Instituto dos nossos Predecessores, esta Santa Sé Apostólica, à qual concorre de todas as partes do mundo, cada dia com maior frequência, a República Cristã a buscar oportunos, e saudáveis remédios nos seus negócios, e espirituais necessidades: E posto que por isso não possamos visitar pessoalmente estas distantes, e apartadas Regiões, para nelas aplicarmos todo o imediato trabalho do nosso Apostólico ministério; e sacrificar a própria vida (como desejamos) pela salvação das Almas remidas com o precioso sangue de JESUS Cristo: contudo, porque não é conforme a nossa intenção, que nenhuma das Nações, que estão debaixo do Céu, experimente a falta da influência, da benignidade, e da providência Apostólica; daqui vem, Veneráveis Irmãos, (a quem a mesma Sé Apostólica uniu a si para cooperar na cultura da Vinha do Senhor,) que gostosamente vos chamamos para ajudardes em parte o nosso cuidado, e vigilância Pontifícia; a fim de que juntamente com ela possais mais, e mais satisfazer a este grande encargo, e merecer com mais facilidade a Coroa, que o Céu destinou aos que legitimamente combatem pela Causa de Deus. Bem notório vos é quais, e quantos tenham sido os trabalhos, e quais, e quantas as despesas, que tem aplicado, e feito, com ânimo alegre, e constante, não só os Pontífices Romanos, nossos Predecessores, mas também os Príncipes Católicos mais beneméritos da Religião Cristã, para que os homens, que viviam nas trevas da ignorância, e repousavam debaixo da sombra da morte, fossem atraídos ao conhecimento da verdade eterna pelos Operários Evangélicos; ora com as Pregações; ora com os exemplos; ora com os prêmios; ora com as dádivas; ora com os benefícios; ora com os socorros; ora com os conselhos; para fazerem resplandecer entre eles a luz da crença Ortodoxa. Da mesma sorte vos é bem manifesto com quantas dádivas, com quantos benefícios, com quantos privilégios, com quantas prerrogativas, se procurou sempre sucessivamente aliciar os Infiéis, para que abraçassem a Religião Cristã; e para que permanecendo nela com boas obras de piedade, consigam a salvação eterna. Por isso não pudemos ouvir sem dor gravíssima do nosso paternal ânimo, que depois de tantas admoestações da Apostólica Providência dos Romanos Pontífices, nossos Predecessores; e depois da publicação das Constituições, em que ordenaram, que se deviam socorrer os Infiéis no melhor modo; proibindo debaixo de severíssimas penas, e Censuras Eclesiásticas, que se lhes fizessem injúrias; que se lhes dessem açoites; que fossem metidos em cárceres; que os sujeitassem a escravidões; e que se lhes maquinasse, ou fosse dada a morte; tudo o referido não obstante, se acham ainda agora (principalmente nessas Regiões do Brasil) homens, que, fazendo profissão da Fé Católica, vivem tão inteiramente esquecidos da Caridade infusa pelo Espírito Santo nos nossos corações, e sentidos, que reduzem a cativeiro; vendem como escravos; e privam de todos os seus bens não só aos miseráveis Índios, que ainda não alumiou a luz do Evangelho; mas até os mesmos, que já se acham batizados, e habitam nos Sertões* do mesmo Brasil, e nas terras Ocidentais, Meridionais, e outras daquele Continente; atrevendo-se a tratá-los com uma desumanidade tal, que, apartando-os de virem buscar a Fé de Cristo, os fazem antes endurecer no Ódio, que contra ela concebem por aqueles motivos. Procurando Nós pois solicitamente, quanto com o Senhor podemos, ocorrer a estas tão deploráveis ruínas: Antes de tudo excitamos a eximia piedade, e nunca assaz compreendido zelo da propagação da Fé Católica, que resplandecem no nosso Caríssimo em Cristo Filho João, Rei preclaríssimo de Portugal, e dos Algarves: O qual pela filial reverência, que nos professa, e a esta Santa Sé Apostólica, nos segurou logo, sem a menor dilação, que ordenaria a todos, e cada um dos Ministros, e Oficiais dos seus Domínios, que castigassem com as gravíssimas penas, estabelecidas pelas suas Leis, todos os que fossem compreendidos na culpa de excederem com os referidos Índios a mansidão, e a caridade, que prescrevem os ditames, e os preceitos Evangélicos. Sobre o que por esta vos rogamos, e exortamos no Senhor, que de nenhuma sorte permitais, que a respeito de tão importante matéria falte em Vós alguma parte daquela vigilância, e cuidado, que são inseparáveis do vosso ministério, com grave detrimento das vossas Pessoas, e dignidades; mas que antes, unindo os vossos desvelos com as diligências dos Ministros Régios, deis a cada um deles as mais evidentes provas de que os Eclesiásticos, Pastores de Almas, abrasados com o fogo da Caridade Sacerdotal, se inflamam ainda mais, do que os mesmos Ministros, no zelo de socorrerem os Índios, e de os conduzirem ao grêmio da Igreja Católica. Além do que Nós de autoridade Apostólica, pelo teor das presentes Letras, renovamos, e confirmamos o Breve de Paulo III., de feliz memória, nosso Predecessor, expedido a D. João de Taveira, Cardeal da Santa Igreja Romana, e Arcebispo de Toledo, na data de XXVIII de Maio de M. D. XXXVII, como também o de Urbano VIII., de feliz recordação, também nosso Predecessor, dirigido ao Coletor geral, que, então era nos Reinos de Portugal, e dos Algarves, na data de XXII de Abril de M. DC. XXXIX. E insistindo nos mesmos decretos de Paulo, e Urbano, nossos Antecessores, para reprimir a ousadia, e a ímpia temeridade daqueles, que devendo atrair com todos os ofícios da Caridade, e mansidão Cristã os sobreditos Índios para receberem a Fé de Cristo, os apartam dela pela desumanidade, com que os tratam: vos ordenamos, e mandamos a Vós, e a vossos Sucessores, que cada um per si, ou pelos seus Ministros, assistindo com o socorro de uma eficaz proteção a todos os Índios habitantes das Províncias do Paraguai, do Brasil, da margens do Rio da Prata, e de qualquer outros lugares, e terras das Índias Ocidentais, e Meridionais; mandeis afixar Éditos públicos, pelos quais apertadamente se proíba, debaixo da pena de Excomunhão latae sententiae (da qual os transgressores não poderão ser absolvidos, senão por Nós, e pelos Romanos Pontífices, que nos sucederem, salvo se for no artigo da morte, dando primeiro uma competente satisfação) que alguma Pessoa, ou seja Secular, ou Eclesiástica, de qualquer estado, ou sexo, grau, condição, e dignidade, posto que dela se devesse fazer especial, e expressa menção; ou seja de qualquer Ordem, ou Congregação, ou ainda da Companhia de JESUS, ou de qualquer outra Religião**, Instituto de Mendicantes, ou não Mendicantes, de Monacais, ou de quaisquer Ordens Militares; e ainda da dos Cavaleiros do Hospital de São João de Jerusalém; se atreva, nem atente daqui em diante fazer escravos os referidos Índios, vendê-los, comprá-los, trocá-los, ou dá-los; separá-los de suas mulheres, e filhos; despojá-los dos seus bens, e fazendas; levá-los para outras terras; transportá-los, ou por qualquer modo privá-los da sua liberdade, e retê-los em escravidão; nem tampouco dar conselho, auxílio, favor, e ajuda aos que isto fizerem, debaixo de qualquer cor, ou pretexto que seja; nem pregarem, ou ensinarem que os referidos fatos são lícitos; nem cooperarem para eles por qualquer modo, ou maneira: Declarando Vós os transgressores, e rebeldes, que vos não obedecerem aos ditos respeitos, por incursos na mesma pela de Excomunhão latae sententiae: E coibindo-os com todas as outras Censuras, e penas Eclesiásticas, e pelos meios mais próprios, e eficazes de feito, e de Direito; sem que sejam admitidos a apelarem destes procedimentos. No caso de não obedecerem ainda, guardada contudo a ordem do Processo, lhes agravareis as penas, e as Censuras, uma, e muitas vezes, invocando em vosso socorro, se necessário for, o auxílio do Braço Secular: Porque para tudo o sobredito, desde a eminência do Sólio Pontifício, vos damos, e concedemos a cada um de Vós, e dos vossos Sucessores, toda a plena e ampla faculdade. E isto, não obstantes as Constituições de uma Dieta ordenada por Bonifácio VIII., de feliz memória; a do Concílio geral das duas Dietas; e quaisquer outras gerais, ou especiais Constituições, e Disposições Apostólicas, estabelecidas em quaisquer Concílios Universais, Provinciais, ou Sinodais: Não obstante quaisquer Leis Munincipais, de quaisquer Lugares sagrados, ou profanos; e quaisquer Estatutos, e costumes, ainda roborados com juramento, e confirmação Apostólica, ou qualquer outra solenidade: E sem embargo dos Privilégios, Indultos, e Letras Apostólicas, que em contrário se tenham concedido, inovado, e confirmado: As quais todas, com as mais, que obstarem, derrogamos em geral, e em especial, por esta vez somente, e para o referido efeito, ainda que delas, e do que nelas se contém, se devesse fazer expressa, especial, específica, e individual menção; e que fosse necessário transladá-las pelas suas próprias palavras, e não por outras cláusulas, que dissessem o mesmo; ou se requeresse para isso alguma extraordinária forma, e solenidade, que se houvesse de guardar; porque havemos por expresso nas preferentes Letras o conteúdo nelas, ficando aliás sempre em seu vigor. E queremos que os traslados, e (?) transumptos destas Letras, ainda impressos, que forem subscritos por algum Notário público, e selados com o selo de alguma Pessoa constituída em dignidade Eclesiástica, valham, e tenham fé, e crédito em Juízo, e fora dele, como se fossem os próprios Originais. E Vós, Veneráveis Irmãos, empregados na guarda, e custódia dos vossos Rebanhos, procurai vigilantemente desempenhar com aquela diligência, zelo, e aplicação, que deveis, as obrigações do vosso ministério; lembrando-vos continuadamente da conta, que ao Eterno Juiz, e Príncipe dos Pastores, Jesus Cristo, haveis de dar das suas Ovelhas, e da que Ele vos há de tão estreitamente pedir: Porque assim esperamos que cada um de  Vós porá todas as forças das suas laboriosas fadigas, para que nesta tão excelente obra de caridade não falte em alguma coisa o benefício do vosso ministério. E entretanto, Veneráveis Irmãos, vos lançamos amantíssimamente para o bom sucesso desta Comissão a Apostólica Benção, com uma abundante cópia das celestiais graças. Dado em Roma junto a Santa Maria Maior, debaixo do Anel do Pescador, no dia XX de Dezembro do ano de M. DCC. XLI., e segundo do Nosso Pontificado.

D. Cardeal Passionei.

Impresso em Roma no ano de M. DCC. XLII.

Na Oficina da Revenda Câmara Apostólica.

E para que esta Constituição tenha a sua devida observância, a mandamos publicar: ordenando que, depois de publicada, se afixe em alguma das partes interiores da nossa Catedral; proibindo com pena de Excomunhão maior, a Nós reservada, que nenhuma Pessoa, de qualquer gênero, ou qualidade que seja, se atreva a rasgá-la, ou extraí-la da dita parte, sem especial licença nossa. Dada nesta Cidade de Belém do Grão-Pará, sob nosso sinal, e selo das nossas Armas, e passada pela Chancelaria, aos vinte e nove de Maio de mil setecentos e cinquenta e sete. E eu Manoel Ferreira Leonardo, Secretário de Sua Excelência, a escrevi.

Fr. M. Bispo do Pará.

Loco + figilli [Assinatura] ”

*”Sertões”: refere-se ao interior da América lusa, não necessariamente ao que hoje conhecemos como sertão.

**”religião”: refere-se às Regras adotadas pelo clero regular, não ao que hoje entendemos por religiões.

 

Transcrição do Edital inquisitorial “que costuma ler-se no primeiro Domingo da Quaresma”, 1659

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Este texto é uma transcrição do Edital original que está no Arquivo da Torre do Tombo e pode ser encontrado digitalmente no site http://digitarq.dgarq.gov.pt/
A transcrição foi feita adaptando-se a linguagem da época para a de hoje.

“Os Inquisidores Apostólicos, contra a herética parvidade, e Apostasia nesta Cidade, e Arcebispado de Lisboa, e seu distrito, e c. fazemos saber aos que a presente virem, ou dela por qualquer via tiverem notícia, que considerando nós a obrigação que nos corre, de procurar reprimir, e extirpar todo o delito, e crime de heresia, e apostasia, para maior conservação dos bons costumes, e pureza de nossa santa Fé Católica; e sendo informados, que algumas pessoas, por nãoterem perfeito conhecimento dos casos que pertencem ao Santo Ofício, deixam de vir denunciar de alguns deles, e que não está suficientemente provido a este inconveniente, com se publicarem os ditos casos só nas ocasiões em que se celebram os Autos de Fé, pela pouca aplicação com que se ouvem naquela ocasião os editais, em que os ditos casos se relatam; e desejando achar meio, para que os fiéis Cristãos não fiquem com suas consciências encarregadas, e ilaqueados com as excomunhões que se fulminam nos ditos editais, nos pareceu mandar publicar de novo todos os ditos casos com esta nossa carta monitória. Pela qual autoridade Apostólica, mandamos a todas, e quaisquer pessoas Eclesiásticas, seculares e regulares, de qualquer grau, estado, preeminência, ordem, e condição que sejam, isentas, e não isentas, em virtude da santa obediência, e sob pena de excomunhão maior, ipso facto incurrenda, cuja absolvição a nós reservamos, que em termo de trinta dias primeiros seguintes, que lhes assinamos pelas três Canônicas admoestações, termo preciso, e peremptório, dando-lhes repartidamente dez dias por cada admoestação, venham denunciar, e manifestar ante nós o que souberem dos casos abaixo declarados.
Se sabem, ou ouviram, que algum Cristão batizado haja dito, ou feito alguma coisa contra nossa santa Fé Católica, e contra aquilo que tem crê, e ensina a santa Madre Igreja de Roma, ainda que o saibam em segredo natural, como for fora da confissão.
Que alguma pessoa depois de batizada, tenha, ou haja tido crença na lei de Moisés, depois do último perdão geral, que se publicou em cinco dias do mês de Janeiro de 1605, não reconhecendo a Cristo Jesus nosso Redentor por verdadeiro Deus, e Messias prometido aos Patriarcas, e profetizado pelos Profetas, fazendo os ritos, e cerimônias judaicas, a saber, não trabalhando nos Sábados, mas antes vestindo-se neles de festa, começando a guardar à sexta-feira a tarde; abstendo-se sempre de comer carne de porco, lebre, coelho, e peixe sem escama, e as mais coisas proibidas na lei velha, jejuando o jejum do dia grande, que vem no mês de Setembro, com os mais que os judeus costumam jejuar, solenizando suas Páscoas, rezando orações judaicas, banhando seus defuntos, e amortalhando-os com camisa comprida de pano novo, e pondo-lhes em cima uma mortalha dobrada, e calçando-lhes calções de linho, e enterrando-os em terra virgem, e covas mui fundas, e chorando-os com suas litiryas, cantando como fazem os judeus, e pondo-lhes na boca grãos de aljofor ou dinheiro de ouro, ou prata, e cortando-lhes as unhas, e guardando-as, e comendo em mesas baixas, e pondo-se detrás da porta por dó, ou fazendo outro algum ato, que pareça ser em obediência da dita lei de Moisés.
Que algm Cristão depois de batizado, siga, ou haja seguindo em algum tempo a maldita lei de Maomé, observando algum dos preceitos do seu Alcorão.
Que tenha, ou haja tido por boa a seita de Lutero, e Calvino, ou de outro algum heresiarca dos antigos, e modernos, condenados pela santa Sé Apostólica.
Negando, ou duvidando haver Paraíso para os bons, e inferno para os maus, e Purgatório em que as almas que neste mundo não satisfazem inteiramente suas culpas, são purgadas primeiro que vão gozar da bem-aventurança.
Negando, ou duvidando, que os sufrágios da Igreja, como são missas, orações, e esmolas, aproveitarão às almas dos defuntos que estão no fogo do Pugatório.
Negando, ou duvidando serem as pessoas obrigadas por preceito divino, a condenarem seus pecados aos Sacerdotes, afirmando que basta confessarem-se a Deus somente.
Sentindo mal, ou duvidando de algum dos artigos de nossa santa Fé.
Negando, ou sentindo mal dos Sacramentos da santa Madre Igreja, assim como da Ordem, e do Matrimônio, celebrando, ou confessando sacramentalmente sem ter Ordens de Missa, ou casando-se publicamente em face da Igreja depois de ter feito voto solene de castidade, ou tomando Ordens sacras, ou casando segunda vez, sendo vivo o primeiro marido, ou mulher.
Dizendo, ou afirmando, que o homem não tem liberdade para livremente obrar, ou deixar de obrar bem, ou mal.
Dizendo, que a Fé sem obras, basta para a salvação da alma, e que nenhum Cristão batizado, e que tenha Fé, pode ser condenado.
Dizendo, e afirmando, que não há mais que nascer e morrer.
Negando, haverem de ser venerados os Santos, e tomados por nossos intercessores diante de Deus.
Negando a veneração, e reverência às Relíquias, e imagens dos Santos.
Sentindo mal dos votos, Religiões*, e cerimônias aprovadas pela santa Madre Igreja.
Negando ao Sumo Pontífice, superioridade aos outros bispos, e a faculdade de conceder Indulgências, e a elas eficácia de aproveitarem às almas.
Negando a obrigação dos jejuns, nos tempos ordenados pela Igreja.
Afirmando, não serem pecados mortais, a onzena, ou fornicação simples.
Sentindo mal da pureza da Virgem santíssima Nossa Senhora, nem crendo que foi Virgem antes do parto, no parto e depois do parto.
Se sabem, ou ouviram, que alguma pessoa exercite a Astrologia Judiciária, leia, ou tenha livros dela, ou de qualquer outra arte de adivinhar.
Se sabem, ou ouviram, que alguma pessoa, tenha, ou leia livros proibidos, ainda com pretexto de licenças que para isto hajam alcançado da santa Sé Apostólica, por todas estarem revogadas por sua Santidade até sete de Junho de mil e seiscentos e trinta e três.
Se sabem, ou ouviram, que algum Confessor secular, ou regular, de qualquer dignidade, ordem, condição, e preeminência que seja, haja cometido, solicitado, ou de qualquer maneira provocado para si, ou para outrem a atos ilícitos, e desonestos, assim homens, como mulheres no ato da confissão sacramental, no confessionário, ou lugar deputado para ouvir de confissão, ou outro qualquer escolhido para este efeito, fingindo que ouvem de confissão.
Se sabem, ou ouviram, que alguma pessoa penitenciada pelo Santo Ofício, por culpas que nele haja confessado, dissesse depois, que confessara falsamente o que não havia cometido, ou descobrisse o segredo que passara na Inquisição, ou detraísse, e sentisse mal do procedimento, e reto ministério do Santo Ofício.
As quais coisas todas, e cada uma delas, que souberem por qualquer via, sejam cometidas, ou daqui em diante se cometerem, o virão denunciar na Mesa do Santo Ofício per si, ou per interposta pessoa: e nos lugares onde houver Comissãrio do Santo Ofício, denunciaram diante dele, e onde os não houver, cada qual a seu Confessor, o qual dentro do mesmo termo será obrigado ao fazer saber ao Santo Ofício: e passado o dito termo de trinta dias, não vindo fazer denunciação do que souberem (o que Deus não permita) por estes presentes escritos, pomos em suas pessoas, cujos nomes, e cognomes aqui havemos por expresso, e declarados, excomunhão maior, e os havemos por requeridos para os mais procedimentos que contra eles mandarmos fazer, conforme a Bula da Santa Inquisição, além de incorrerem na indignação do Onipotente Deus, e dos bem-aventurados São Pedro, e São Paulo, Princípes dos Apóstolos, e sob mesma pena mandamos, que pessoa alguma não seja ouzada a impedir, ou aconselhar, que não denunciem, ameaçando, subornando, ou fazendo algum mal aos que quiserem denunciar, ou houverem denunciado.
E assim denunciarão se sabem de alguma pessoa, ou pessoas, que tiverem cometido o nefando, e abominável pecado de sodomia.
E com a mesma Autoridade Apostólica mandamos com pena de excomunhão maior, e de cinquenta cruzados, aplicado para as despesas do Santo Ofício, a todos os Priores, Vigários, Reitores, Curas, e mais pessoas Eclesiásticas, seculares ou regulares, a quem esta nossa carta for apresentada, que no dia, e hora que lhes for apresentada, a leiam, ou façam ler em suas Igrejas, em voz alta, e inteligível, para que venha a notícia de todos, e não haja quem possa alegar ignorância.
E esta mesma carta mandarão por em uma tábua, e a guardarão cada um na Sacristia da sua Igreja, ou Convento, na qual estará sempre; e nos anos seguintes a lerão, e publicarão na primeira Dominga de cada Quaresma, e requeremos da parte da santa Sé Apostólica aos senhores Deães, e Reverendos Cabidos Sede vacantes, e Prelados maiores das Sagradas Religiões*, que façam por com os mais capítulos de visitações um, para que os Senhores Visitadores perguntem nas ocasiões de visitas, se os Párocos, ou Prelados menores cumprem com suas obrigações publicando esta dita carta na forma que fica ordenada; e achando que alguns se descuidaram nesta parte, façam sumário, que nos será enviado para procedermos contra eles conforme seu descuido, ou culpa merecer.
Dada em Lisboa no Santo Ofício sob nosso sinal, e selo dele aos 28 de fevereiro [ilegível] 1659.
[Assinaturas]”

* “Religiões” refere-se às Regras Monásticas adotadas pelo clero regular, e não outras religiões no sentido que se entende hoje.

Localização do documento: Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa. Código de referência: PT/TT/AJCJ/AJ029/00012

A Vida no Seminário

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A instituição na qual um futuro sacerdote recebe sua formação intelectual e espiritual é conhecida como seminário. A Igreja nem sempre formou seus sacerdotes exatamente da mesma maneira, e parece que o Cardeal inglês Reginald Pole foi o primeiro a usar a palavra “seminário”, em 1556, no presente sentido de uma instituição exclusivamente dedicada à formação do clero.

Para os primeiros séculos da Igreja, a escassa documentação nos leva a crer que os jovens que desejavam abraçar o sacerdócio recebiam sua instrução privadamente, vivendo, aprendendo e ajudando o Bispo local e com seu presbitério. Gradualmente, um treinamento mais formal resultou nos colégios das catedrais, sob a supervisão do Bispo, e dos mosteiros; depois, na Idade Média, ao redor das grandes Universidades.

Mas várias circunstâncias levaram a abusos e uma progressiva degeneração dos estudos e da disciplina até o Concílio de Trento. Este santo Concílio, o qual deu atenção bastante meticulosa para o aprimoramento da disciplina da Igreja em todos os domínios, preocupava-se de modo especial com a questão da formação sacerdotal. Finalmente, em 1563, em sua 23ª sessão, o Concílio sancionou seu decreto para os seminários, que permanece até hoje a lei fundamental para a formação clerical.

O seminário existe, por conseguinte, para formar padres. O que essa formação abrange? A natureza do sacerdócio nos dá a simples resposta: o padre vai receber poderes espirituais extremamente gigantescos sobre tanto o Corpo como o Sangue de Cristo, que ele consagra na Missa e distribui na Sagrada Comunhão, e sobre o Corpo Místico de Cristo, isto é, os membros da Igreja, cujos pecados ele absolve; além disso ele deve instruir os fiéis nos ensinamentos e na lei de Deus.

Sua preparação no seminário corresponde a essas tarefas futuras: ele estuda em grandes detalhes os vários aspectos da doutrina que um dia ele deverá transmitir aos outros, e defender em nome da Igreja; e ele se santifica para que seja verdadeiramente um alter Christus (“um outro Cristo”) em sua vida, assim como ele o é pelos poderes que recebe. Cada detalhe de sua vida e de seus estudos no seminário procura preparar o jovem em sua vocação.

A Vida Cotidiana

Horários

A vida diária no Seminário nem sempre é fácil, especialmente para os recém-chegados. O dia começa com o toque do despertar às 6:00. Às 6:30, a comunidade se reúne para recitar o Ofício da Prima na capela-mor. Uma meditação de 25 minutos se segue à Prima, e a Santa Missa é oferecida às 7:15. Concluída a Missa, é feita uma ação de graças de dez minutos.

A comunidade então se reúne no refeitório para um rápido café-da-manhã, e depois uma série de tarefas precisa ser feita antes da primeira aula do dia. Essas tarefas incluem arrumar mesas, lavar louças, limpar banheiros, varrer o chão, limpar as salas de aula, e geralmente manter tudo em boa ordem. Todas as tarefas são colocadas num mural, e elas mudam a cada semana, dando aos seminaristas experiência variada das diferentes tarefas designadas para eles.

As aulas da manhã começam às 9:00 e terminam às 11:50, com um intervalo de dez minutos entre cada uma das três aulas. Ao som do sino de 11:50, aqueles que foram designados para arranjar as mesas e lavar as louças na semana vão à cozinha e ao refeitório para arrumar a refeição comunitária e almoçar meia hora mais cedo. O resto da comunidade vai a capela às 12:15 para recitar o Ofício da Sexta. Depois da Sexta, é rezado o Angelus e todos vão para o refeitório almoçar.

Durante esta refeição, bem como durante o jantar, é lido um trecho do Novo Testamento em Latim, seguido de uma leitura, em Inglês, de um livro de interesse religioso, político ou histórico. A leitura geralmente dura por cerca de três quartos da refeição, e no fim, toca-se um sino; a leitura para, e a comunidade tem permissão para conversar. Nos Domingos e dias de festa, o sino é tocado imediatamente depois do pequeno trecho da Escritura. Quando o sino toca novamente, ao final da refeição, todos se levantam para dar graças a Deus.

O lazer da tarde começa então para aqueles que não têm nenhum trabalho para fazer. Dura cerca de 55 minutos. Pode-se passar o recreio fazendo uma caminhada, descansar na sala de recreação com uma leitura, jogando jogos de tabuleiro, ping-pong, futebol. Dependendo da estação, pode-se também jogar basquete, vôlei, futebol, hóquei, sledding ou até mesmo guerra de bola de neve! Alguns seminaristas gostam de passar este tempo na Sala de Música desenvolvendo seu talento musical com o piano ou outros instrumentos.

Das 14:00 às 17:30, é hora de estudar para a maior parte da comunidade, com uma pausa para o lanche de quinze minutos às 15:30. Às 17:30, nas segundas, terças, quintas e sábados, o reitor ou o vice-reitor dá uma conferência espiritual. Nas sextas-feiras, canto gregoriano é praticado pela comunidade antes da conferência espiritual.

Às 18:00 é rezado o Terço por toda a comunidade. Nas quintas-feiras, a Benção do Santíssimo Sacramento toma o lugar do Terço, que então é rezado privadamente.

O jantar é às 18:30 e é seguido de uma curta recreação de cerca de quarenta minutos. Para a recreação da noite, os seminaristas fazem caminhadas, jogam jogos de tabuleiros ou de cartas, leem, ou jogam futebol, bilhar, ping-pong. No fim da primavera e começo do verão, futebol, vôlei, e basquete são bastante apreciadas (bem como hóquei no inverno).

Às 19:45 o sino toca acabando com o tempo para o lazer e o começo da hora de estudo, que dura até 20:40. Para os estudantes de Humanidades e do Primeiro Ano, o tempo de estudo é feito no Salão de Estudos. Aqui, em uma das salas, um diácono é designado para auxiliar os seminaristas enquanto estudam.

Às 20:45, o Ofício noturno das Completas é cantado na capela para agradecer a Deus pelas graças e bençãos do dia, e para pedir Seu contínuo auxílio e proteção. Quando as Completas terminam, o dia termina e o silêncio desce sobre o Seminário com mais rigidez do que o silêncio habitual. Desde cerca de 21:05 até 22:00, os seminaristas podem ficar na capela ou ir para seus quartos para se prepararem para dormir e para um outro dia a serviço de Deus. Às 22:00, os seminaristas devem desligar as luzes e ir dormir. Durante o Grande Silêncio, das 22:00 às 6:00 do outro dia, nenhuma torneira deve ser aberta e todo barulho deve ser evitado.

Nos Domingos e dias de festa, o horário varia um pouco por causa da solenidade das cerimônias litúrgicas. Não há aulas nesses dias, e há períodos maiores de recreação; os seminaristas também tem as tardes de quarta-feira de folga para lazer ou (com permissão) para ir a cidade fazer compras necessárias.

O espírito de oração, nutrido tantas vezes durante o dia na capela, e na devoção pessoal de cada um, permeia toda a existência do seminarista, enquanto este se esforça para se conformar plenamente com o exemplo de Nosso Senhor, cujo ministro ele espera se tornar. Todos os demais convivem em espírito de caridade fraternal, assim como a Igreja sempre considerou ideal tanto para os padres quanto para os futuros padres, ajudando-se mutualmente pela amizade, auxílio e encorajamento.

Silêncio

O fervor de uma casa religiosa pode ser medido pela observância da regra do silêncio. O silêncio é um meio indispensável para a oração, para o recolhimento, e para a união com Deus. Ele é, consequentemente, a regra mais importante do Seminário. Com raras exceções, deve-se guardar o silêncio em todos os momentos, fora das horas de lazer. Além do silêncio geral, há o Grande Silêncio. Este começa quando o sino toca para as Completas, às 20:45. Às 22:00, um silêncio ainda mais perfeito deve ser observado, não fazendo correr água até as 6:00 da manhã seguinte.

Depois do café da manhã, quando recomeça o serviço das refeições, termina o Grande Silêncio. É permitido falar, se necessário, durante as refeições, para melhor cumprir a tarefa, mas o silêncio geral ainda deve ser observado. Desta maneira, os seminaristas são lembrados que seu trabalho deve ser feito em união com Deus, e oferecido a Ele com uma intenção sobrenatural.

Trabalhos manuais

Os trabalhos manuais constituem grande parte do dia para os seminaristas no Sábado, bem como para os irmãos religiosos nos outros dias da semana. O dito trabalho pode incluir qualquer coisa desde cortar madeira a varrer folhas, cuidar da sacristia, digitar algo nos computadores, trabalhar nas caldeiras do Seminário, consertar carros, pintar, limpar, e por aí vai. Todo esse trabalho é feito a tarde, logo após a hora de lazer do meio-dia, e dura aproximadamente duas horas e meia.

Lazer

Nos Domingos e nas quartas-feiras, após o almoço, a comunidade tem uma hora de lazer maior. Há várias possíveis atividades e todos são livres para fazerem o que quiserem, embora seja necessário estar fora do prédio do seminário e com pelo menos um outro seminarista por duas horas.

Na primavera e no verão, pode-se ocupar em várias atividades como futebol, basquete, vôlei, bocce, e cavalgar; no outono e no inverso: beisebol, futebol americano, sledding, e guerra de bolas de neve! Há sempre um grupo regular de seminaristas fazendo caminhada e bastante espaço para andar no seminário para aqueles que se interessam.

Além da recreação de Domingo e de quarta-feira, há também vários dias de festas e solenidades durante o ano. Nesses dias, o cronograma é o mesmo do Domingo. Durante o ano, o Seminário concede cinco dias livres: o Dia de Ação de Graças, três dias de fevereiro seguidos às provas de meio do ano e à recepção da batina e da tonsura, e na segunda-feira após Pentecostes. Nos dias livres, depois de assistir a Santa Missa, os seminaristas podem passar o dia como quiserem, contanto que voltem ao Seminário às 20:45 para as Completas.

As trilhas em comunidade são outra atividade de lazer pela qual todos esperam ansiosamente. Estas trilhas consistem em uma atividade que toma o dia todo, preparada previamente por alguns seminaristas, onde um caminho de oito a dez milhas é percorrido por toda a comunidade. Na véspera do grande dia, os organizadores devem garantir comida o bastante para o almoço. No dia, todos amontoam-se no ônibus do Seminário e nos carros de apoio às 9:00, ansiosos por esquecer ao menos por um tempo seus estudos e relaxar. As trilhas normalmente acabam às 16:00 e na volta para o Seminário, os trilheiros fatigados asseiam-se para rezar o Terço. Os seminaristas sempre esperam ansiosamente para o almoço na trilha, pois geralmente é de pizza e cerveja!

O quarto do seminarista

O quarto do seminarista é modesto. Tem uma cama, uma escrivaninha e uma cadeira, uma pia, uma cômoda e um guarda-roupa para as roupas, algumas estantes para livros, e um crucifixo. O seminarista deve aprender a amar seu quarto com os propósitos de estudo e oração. É principalmente aqui que ele deve aprender a adquirir as duas condições indispensáveis para o apostolado sacerdotal: a doutrina e a piedade.

Os estudos do seminarista

O dia do seminarista é equilibrado entre estudo, oração, trabalho e lazer, com ênfase no estudo. Estudo e piedade são qualidades necessárias para um futuro padre, por isso o cronograma do Seminário é feito visando este equilíbrio.

Humanidades

O propósito do ano extra de Humanidades é dar aos estudantes uma base nas matérias que são fundamentais para fornecer uma formação sólida e natural para os futuros sacerdotes; uma formação que falta em muitos dos jovens que se apresentam ao Seminário hoje.

Em Religião, as verdades básicas de Fé são vistas como em uma típica catequese. Em História, os jovens são ensinados sobre a Antiguidade Clássica e como a civilização cristã foi inconscientemente preparada pelos gregos e romanos. Em Literatura, os seminaristas aprendem os vários estágios do desenvolvimento da literatura através dos séculos, e como este instrumento poderoso formou os pensamentos, discursos e acordos da civilização cristã. Gramática e Redação ajudam o jovens a se expressar com inteligência e clareza, e a serem capazes de compreender os textos que lhe são dados. Latim também é ensinado para dar ao recém-chegado uma introdução à língua da Igreja. Uma compreensão e apreciação de boa música é uma outra ferramenta para o apostolado sacerdotal, e por isso os estudantes são apresentados às músicas dos grandes compositores e são ensinados um pouco de história e teoria da Música.

Ano de Espiritualidade (1º ano)

O primeiro ano, ou ano da espiritualidade, pretende fazer o novo seminarista a se acostumar com as coisas de Deus e à vida espiritual da alma, e prepará-lo melhor para os estudos sacerdotais.

O estudo de Teologia Mística e Ascética constitui a essência do ano da espiritualidade. O seminarista aqui conhece o que é a vida espiritual, e os princípios de como alcançar a perfeição cristã.

Em Atos do Magistério, os seminaristas estudam a doutrina da Igreja contida nas encíclicas papais, especialmente os Papas dos dois últimos séculos, até e inclusive Pio XII, que lidou com os erros do modernismo, liberalismo, naturalismo e afins.

Latim continua sendo estudado pelos seminaristas para desenvolver uma maior proficiência na linguagem da Igreja e em sua Liturgia.

No primeiro ano de Escrituras, os seminaristas aprendem a história das Sagradas Escrituras e termos peculiares como inspiração, autenticidade, canonicidade, e sua inerrância em relação a Verdade Revelada.

Nas aulas de Liturgia, a história da Sagrada Liturgia da Igreja é revista, com uma explicação do belo simbolismo em todos os elementos que constituem a Liturgia. A revolução litúrgica da última metade do séc. XX é uma importante parte do curso.

Canto gregoriano é outra parte importante da formação de um seminarista. Diferenciando-se substancialmente da música moderna, tanto na notação e na estrutura geral, o Canto aparenta ser um desafio para a maioria dos seminaristas, mas é a música litúrgica mais antiga e valorizada música litúrgica da Igreja.

Nos cinco anos de estudo intenso e exigente que se seguem, o seminarista estudará cada um dos seguintes temais gerais por um período de dois, três, ou quatro anos, cuidadosamente fiel ao ensinamento do Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, cuja obra a Igreja adotou oficialmente como base para a educação sacerdotal.

Segundo Ano

 O curso de Filosofia é uma rotação de dois anos, compreendendo o segundo e o terceiro ano no currículo normal do Seminário. Aqui os seminaristas são introduzidos a um campo que é, para a maioria deles, desconhecido. Lógica, Cosmologia e Psicologia, Ética, Apologética, e História da Igreja são as novas matérias que serão estudadas no Segundo Ano.

Em Lógica, os seminaristas são ensinados a pensar com retidão, a debater um assunto com clareza, e reconhecer error ou falácias nos argumentos que lhes sejam apresentados. Os seminaristas de segundo e terceiro ano juntam-se para estudar um dos cursos “menores” de Filosofia – Cosmologia, Psicologia, Introdução a Filosofia, e Ética – cada um durando um semestre. Em Cosmologia, os seminaristas aprendem como os antigos filósofos observaram, explicaram, e categorizaram o Universo físico. Psicologia é a matéria na qual se estuda a alma humana de acordo com os ensinamentos de Aristóteles e Sto. Tomás de Aquino. Ética consiste no estudo dos princípios de conduta moral e, assim, serve de introdução básica para o estudo de Teologia Moral. Além de Filosofia, os seminaristas de segundo ano estudam Apologética, História da Igreja, e Sagrada Escritura.

Apologética, um curso de dois anos, estabelece a veracidade, autenticidade e a autoridade da Revelação Divina, e os meios para provar o papel único da Igreja como a única intérprete da Revelação. O alvo primário não é provar as verdades de Fé, mas mostrar que elas estão em perfeita harmonia com a razão, e que é adequado crer nelas. O curso demonstra, por exemplo, a possibilidade da Revelação Divina pela qual nós possuímos os artigos de Fé. Períodos posteriores do curso provam que Nosso Senhor fundou uma Igreja visível que é Una, Santa, Católica e Apostólica, que não é outra além da presente Igreja Católica.

A História da Igreja, que começa no segundo ano, extende-se até o quinto ano, e familiariza o seminarista com os vinte séculos da gloriosa história da Igreja, proporcionando-lhe inestimáveis exemplos e lições, e munindo-lhe para refutar as falsidades históricas dos hereges e inimigos da Fé contemporâneos.

Sagradas Escrituras é o único curso que é estudado em todos os seis anos de Seminário. Durante esses anos de formação, o seminarista nunca deixa os livros sagrados através dos quais, juntamente com a Tradição, Deus nos ensina aquilo que devemos crer. Cursos gerais oferecem uma introdução ao Antigo e Novo Testamentos; outros cursos tomam um livro em particular, ou uma série de livros, e examinam-nos mais detalhadamente, preparando o futuro sacerdote para fazer o mesmo com aqueles que ele não estudará nas aulas.

Terceiro Ano

O terceiro ano, ou segundo ano de Filosofia, é o ano de Metafísica. A maioria das matérias do segundo ano continuam também no terceiro, por isso Metafísica é a única que pede explicação. Aqui o seminarista aplica-se ao estudo meticuloso das mais elevadas leis e princípios gerais do Ser, e a Teodicéia, o estudo de Deus à luz da razão humana. É indiscutivelmente a matéria mais “assustadora” a ser encarada no seminário, mesmo para aqueles seminaristas de mente mais especuladora. O conhecimento adquirido, porém, é a recompensa do esforço necessário para aprender bem a matéria. Ela é fundamental para uma real compreensão da Teologia, especialmente no que tange à Ssma. Trindade, a Encarnação, e os Sacramentos.

Quarto, Quinto e Sexto Ano

O quarto, quinto, e sexto ano do Seminário são primeiramente dedicados ao estudo de Teologia Dogmática e Moral, e Direito Canônico. Os seminaristas desses anos assistem aulas juntos num ciclo de três anos. Os estudos de Sagrada Escritura e História continuam nesses anos.

Teologia Dogmática é dividida em duas classes separadas: Dogma I e Dogma II. O propósito de Dogma I é dar ao seminarista um conhecimento mais profundo das principais verdades de Fé. Em Dogma II é estuda as doutrinas que ou surgem ou complementa as verdades principais. Em ambas as disciplinas, estuda-se a divina Revelação contida nas Escrituras e na Tradição de um outro ponto de vista: o que o seminarista deve crer, e o que ele irá um dia explicar para os outros. Aqui o seminarista contempla Deus, Uno e Trino; a Criação; graça e pecado; Cristo e a Redenção; os Sacramentos; e os Novíssimos.

Em suas aulas de Teologia Moral, o seminarista começa a estudar em detalhes a Lei de Deus que um dia ele deverá pregar, e que será o fundamento de seu ministério no confessionário. Ele aprende os princípios gerais da moralidade, e depois estuda cada uma das virtudes e os pecados e culpas opostos a elas, considerando com especial atenção os casos mais particulares que ele poderá encontrar.

Em Direito Canônico, os seminaristas tem uma visão geral do livro eclesiástico em que a prudência está codificada. Tanto o antigo quanto o novo Código de Direito Canônico são estudados para que os seminaristas vejam a diferença entre os dois códigos e sejam capazes de fazer um prudente julgamento a respeito da apricação da mente tradicional da Igreja na legislação vigente.

Avaliações

Os seminaristas fazem provas duas vezes no ano. As primeiras provas acontecem no final do primeiro semestre, no fim de Janeiro, enquanto as provas finais no segundo semestre acontecem no começo de Junho, pouco antes das ordenações. Aqueles que estão em Humanidads e seminaristas do primeiro e segundo ano fazem provas escritas, enquanto os seminaristas do terceiro ao sexto ano fazem tanto provas escritas quanto orais.

Os Irmãos

No Seminário, os Irmãos formam uma parte importante da comunidade. O Arcebispo Lefebvre escreveu no Estatuto da Fraternidade que os irmãos deveriam ser como anjos da guara de nossas comunidades. Por sua vida de oração e simplicidade e generosidade amigável, eles são uma fonte de constante edificação para todos. O Seminário é a cada de formação dos irmãos onde eles fazem um postulantado de um ano e um noviciado de também um ano. Depois disso, eles tipicamente servem um ano ou mais como irmãos professos no Seminário até que sejam mandados para assistir às escolas ou outros priorados.

O objetivo primário dos irmãos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X é a glória de Deus, sua própria santificação, e a salvação das almas. Seu papel particular é ajudar os padres no apostolado dos priorados, seminários e escolas. Por sua vida de oração regular, e, mais concretamente, por fazerem tudo que sejam capazes, seja cuidar do jardim, cozinhar, carpintaria, secretariado; ou mais diretamente ajudar no apostolado fazendo o trabalho de sacristia, catequese, ensino, e por aí vai, eles contribuem formidavelmente para a obra e a glória de Deus.

A Capela do Seminário

A capela do Seminário é de estilo neo-gótico. Construída no final da década de 40 por dominicanos, ela está cheia de imagens próprias da Ordem Dominicana. No centro da capela, está um crucifixo preto e branco, de mármore alemão, medindo doze pés, com uma representação de São Domingos, ajoelhado com as mãos tocando os pés da Cruz. O altar também é de mármore, e ostenta um emblema mariano do Rosário em seu centro. Quase todas os vitrais representam santos e símbolos dominicanos.

Neste lugar, a capela-mor, a Missa diária é oferecida para a comunidade e para os fiéis que desejam assisti-la. O Santo Sacrifício da Missa é o ato litúrgico central na Liturgia da Igreja. É aqui que o jovem levita vai fomentar e nutrir sua fé e amor pela Vítima do Calvário, Jesus Cristo, a Quem ele poderá ser chamado um dia a imitar como sacerdote, e a oferece-Lo a Deus Pai sobre o altar.

A benção do Santíssimo Sacramento é dada toda quinta-feira e aos Domingos, e depois das Vésperas II nas festas de primeira classe. Nesse momento, o fiel louva a Deus com hinos e orações, e Deus por sua vez abençoa o fiel através de Seu sacerdote, quando ele eleva o ostensório e faz o sinal da cruz sobre aqueles presentes.

Canto Gregoriano

O Canto Gregoriano tem sido usado na Liturgia da Igreja por séculos para adicionar esplendor aos Sagrados Ritos, e para elevar as mentes e os corações dos fiéis para as coisas de Deus. Por conseguinte, é parte importante da formação do seminarista aprender como cantar canto Gregoriano e, se possível, ensiná-lo a outros.

O coral do Seminário consiste de uma dúzia de seminaristas, escolhidos pelo diretor do coral, e aprovados pelo padre responsável pelo Canto Gregoriano. O coral ensaia duas vezes por semana para a Missa Solene no Domingo e para qualquer Missa Cantada durante a semana. Para o resto da comunidade, um ensaio separado é feito uma vez por semana, e chama-se Aula Comum. Na Aula Comum, o diretor do coral, ou um membro do coral escolhido por ele, prepara a comunidade para cantar nas Missas e Vésperas da semana, e ocasionalmente revisa alguns princípios teóricos do Canto Gregoriano.

Os sermões dos diáconos

Além de serem obrigados a rezar o Breviário inteiro todos os dias, e ocasionalmente fazer a purificação dos objetos litúrgicos, os diáconos também pregam aos fiéis nas Missas Rezadas nos Domingos.

Ordenações

Em seu caminho para o sacerdócio, o seminarista recebe sete ordens da Igreja, cuja sétima é o próprio sacerdócio. Essas ordens são vários degraus calcados pelo seminarista que vai se aproximando do momento de oferecer o Santo Sacrifício. Cada ordem dá ao que a recebe uma tarefa e função específica para realizar na vida da Igreja, e m correspondente aumento de responsabilidade. No seminário, as ordens são precedidas de dois degraus preliminares os quais são necessários para sua digna recepção.

Primeiros Passos

O primeiro passo importante que o novo seminarista dá em direção ao sacerdócio, embora relativamente pequeno em si mesmo, é em seu primeiro ano, quando ele recebe a batina ou o hábito clerical, de modo que se despoja das roupas de um leigo e se alista no serviço de Deus. A batina negra lembra ao seminarista, e a aqueles que o vêm, que ele está morto para o mundo e para as coisas do mundo. Ele é lembrado no sermão que agora ele deve agir como um sacerdote, já que todos que o vêm hão de pensar isto.

Essa cerimônia toma lugar no dia 2 de fevereiro, festa da Purificação, bem como a recepção da tonsura clerical pelos seminaristas do segundo ano. Pela tonsura, o seminarista torna-se um clérigo, um membro oficial do clero da Igreja. Na cerimônia, cinco mechas de cabelo são cortadas na forma de cruz, significando a renúncia às vaidades do mundo e a disposição em tomar a cruz e seguir a Jesus Cristo.

Ordens menores

Depois destes passos preparatórios, o seminarista está pronto para receber as primeiras ordens. As primeiras quatro ordens são conhecidas como “menores” porque, diferentemente das ordens maiores, elas não conferem caráter permanente.

Os seminaristas de terceiro ano recebem as duas primeiras ordens menores de Ostiário e Leitor. É trabalho do Ostiário cuidar da Casa de Deus e das coisas que nela há, de trazer os fiéis para dentro da igreja e manter os infiéis ou irreligiosos fora.

O Leitor tem a obrigação de ler os vários ensinamentos da Igreja com clareza de discurso, para que todos possam escutá-las bem.

Os seminaristas do quarto ano recebem aos outras duas ordens de Exorcista e Acólito. O Exorcista recebe participação do poder sacerdotal de expulsar demônios. Embora o seminarista nunca será realmente chamado a realizar um exorcismo, ele tem, no entanto, uma responsabilidade de viver de maneira que os demônios não se aproximem. O Acólito é o portador das luzes nas cerimônias litúrgicas da Igreja. Portanto, ele está obrigado a fazer a luz de seu bom exemplo brilhar perante os homens.

Ordens maiores

O quinto ano é, normalmente, o ano da recepção do subdiaconato. A característica mais marcantedesta cerimônia é o verdadeiro passo a frente que o ordenando dá, significando sua total entrega ao serviço de Deus, e sua perpétua renúncia a possibilidade de casamento e vida familiar. Eles estavam, até agora, livres para voltar para o mundo. De agora em diante, eles devem dedicar-se inteiramente ao serviço da Igreja. Os subdiáconos devem também rezar diariamente as oraões do Breviário, fazer a purificação dos panos usados no Santo Sacrifício da Missa. Eles estão obrigados, portanto, a uma maior pureza de vida para que possam dignos de tal ofício.

Durante o sexto e útimo ano de seminário, o ordenando recebe o diaconato. Para os diáconos, há uma íntima participação no Sacramento da Ordem. Sua principal tarefa é proclamar o Evangelho, mas eles também podem, se necessário, distribuir a Sagrada Comunhão, administrar o Batismo, e dar a Extrema-unção. No ano seguinte, eles serão elevados a dignidade do sacerdócio se forem considerados preparados.

O dia das ordenações diaconais e presbiterais no final de Junho é o maior evento no ano do Seminário. É uma ocasião de alegria para toda a comunidade e para os fiéis presentes, que vem em grande número de todo o país, para testemunhar a criação de novos sacerdotes; sacerdotes que vão dedicar suas vidas à salvação das almas em imitação a Jesus Cristo; sacerdotes que serão fiéis a sua tarefa, e ao espírito da Fraternidade e de seu amado fundador; a espírito do sacrifício e da generosidade, o espírito de oração e união com Deus. Para os ordenandos, é a culminação de seis ou mais anos de oração, estudo, e disciplina. Tudo que eles fizeram foi em vista desse momento – o momento no qual eles receberão o caráter sacerdotal. Com o Sacramento da Ordem, o novo sacerdote recebe o poder de consagrar, de perdoar pecados, e de abençoar os fiéis.

Na cerimônia de ordenação, o bispo consagrante é o primeiro a impor suas mãos na cabeça dos ordenandos, seguido de algum outro bispo presente, e finalmente de todo o clero presente. Isso é o que é conhecido como “matéria” do sacramento.

Após o canto do prefácio e a leitura da “fórmula” sacramental do rito de ordenação, as estolas dos ordenandos são cruzadas, e eles recebem a casula. Eles agora são sacerdotes. Entoa-se o Veni Creator para implorar a assistência do Espírito Santo e então as mãos dos ordenandos são ungidas com o óleo dos catecúmenos. Suas mãos são limpas com uma toalha e eles tocam na patena, na hóstia e no cálice com seus dedos.

Quando ofertam suas velas, os novos sacerdotes concelebram a Missa junto ao bispo ordenante. Os padres assistentes ajudam-nos a seguir o Missal. Depois da comunhão, o Bispo novamente impõe suas mãos sobre os novos sacerdotes e solicita sua futura obediência. Segurando as mãos do recém-ordenado entre as suas, o Bispo o admoesta e pede-lhe que prometa-lhe obediência. O padre responde, “Promitto” – “Eu prometo”. Então o Bispo lhe dá o sinal da paz, o abençoa, e lhes dá uma “penitência”. Canta-se o Te Deum, o hino de agradecimento, e todos os servidores, ministros e novos padres e diáconos fazem uma alegra procissão de volta a sacristia para tirar fotos e dar a benção final.

Depois da cerimônia, os fiéis ansiosamente esperam por uma oportunidade de receber a primeira benção dos novos sacerdotes. O sino do Seminário toca para chamar todos os ordenados e seus convidados para o almoço de comemoração. Para os fiéis que não possuem um convite especial, o Seminário fornece uma refeição separada. O outro dia começa com a primeira Missa dos padres recém-ordenados. Um padre assistente ajuda o jovem sacerdote a seguir as rúbricas do Missal, e dá o sermão em seu lugar. Depois de assistir a uma das primeiras Missas, a maioria dos fiéis retorna para casa. Eles retornam, sem dúvidas, com força renovada para a batalha espiritual, e com gratidão para com Deus por nos conceder o dom de novos sacerdotes.

Conclusão

Este é, portanto, o santo sacerdócio; a vocação a qual cada sacerdote é chamado; a Fraternidade de São Pio X, cuja principal preocupação são os sacerdotes e a formação de bons sacerdotes; e o programa de formação que seus membros recebem. Nós esperamos que muitas de suas dúvidas tenham sido respondidas. Para aquelas que ainda permanecem, e particularmente para dúvidas mais práticas que tenham a ver com a possibilidade de entrar no seminário, nós cordialmente lhe convidamos a contactar o Reitor de nosso seminário no seguinte endereço:
Director of Vocations
St. Thomas Aquinas Seminary
21077 Quarry Hill Rd.
Winona, Minnesota 55987
507-454-8000

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(Tradução livre da página oficial do Seminário St. Thomas Aquinas, em Winona, nos EUA: http://www.sspxseminary.org/seminary-life/life-at-the-seminary.html )

Site de arquitetos tradicionais americanos

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Para simpatizantes de arquitetura (como eu) que não se cansam de observar belas igrejas barrocas na Internet e coisas semelhantes, descobri um site americano de um grupo de arquitetos que trabalha com arquitetura tradicional, especialmente de igrejas católicas. Sempre tive uma admiração muito grande pela arquitetura de prédios antigos, especialmente depois que percebi que vivo numa diocese em que Niemeyer é o modelo das melhores igrejas!

Não tenho nenhuma ligação profissional com Arquitetura, é simplesmente um interesse pessoal. Se alguém compartilha desse interesse, aqui vai o site: http://www.mccreryarchitects.com/

Mesmo pra quem não entende muito do assunto, como eu, vale a pena dar uma olhada.

Fiquei muito impressionado ao ver que ainda se constroem igrejas desse tipo. Eles não só projetam igrejas tradicionais, mas também reestruturam igrejas extravagantes para dar a elas uma aparência mais católica.

Tomara que essa mania pegue.

A arquitetura das igrejas católicas de Brasília

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“Senhor, amo a beleza de vossa casa, e o tabernáculo onde reside a vossa glória”. (Sl 25,8)

“Hic domus Dei est, et porta caeli”.(Gn 28,17)
Caríssimos,
Salve Maria!
Há algum tempo atrás publiquei o artigo Brasília uma cidade praticamente “pós-conciliar”, onde foi abordada a arquitetura dos principais templos Católicos da cidade. No artigo foi mostrado que os templos que aqui foram construídos tem sua arquitetura mais parecida com templos pagãos do que com a de uma Igreja Católica.
Pois, bem resgato o assunto para abordar a respeito de uma das Igrejas que cito no artigo, a Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, esta está em processo de reforma que já foi quase concluída. E o responsável pela decoração (pinturas) o artista Francisco Galeno, simplesmente resolveu pintar uma imagem da Santíssima Virgem Maria soltando pipa.
Da para acreditar? Segundo o artista a intenção é aproximar a imagem das crianças, já que foi para crianças que a Virgem apareceu.
Na nova pintura, a santa no centro do altar é Nossa Senhora de Fátima sem rosto. Ela tem uma pipa no lugar das mãos. O rosário é um carretel de linha. A coroa é decorada com flores.
Alguns fiéis que não gostaram nada da idéia se reuniram e fizeram um abaixo-assinado, mas como não houve muita divulgação do caso, reuniram apenas 68 assinaturas que parece não ter surtido efeito.Diante desse caso me pergunto:
Como não comparar a arquitetura atual com a “antiga” e condenar a modernidade?
Ora, quanta saudade dos tempos em que víamos o esforço conjunto dos arquitetos e dos decoradores de nossas igrejas. Vendo a estes cobrirem as paredes com mosaicos e pinturas, ou criar seus admiráveis vitrais, não se pode evocar menos que uma passagem do Apocalipse que forma a quinta antífona das Vésperas da Dedicação: Lapides pretios omnes muri tui, Ierusalem (Ap 21,19), esta Jerusalém descida do céu, que o próprio São João viu (Ap 21,2), como o recorda o capítulo das Vésperas”.(Mons. Klaus Gamber, “A missa de frente para Deus, p.22)
Será possível hoje que as Igrejas sejam construídas devidamente orientadas e ornamentadas?
A abside orientada evoca o céu. Será reservada obrigatoriamente para uma imaginária celestial. Isto é válido não só para as igrejas do Oriente, mas para as absides de nossas igrejas românicas. O sacerdote, ao celebrar no altar, verá, se levantar os olhos, alguma representação simbólica da glória celestial, alguma evocação teofânica em relação com a Escritura. Celebrará verdadeiramente de frente para Deus. Quem não sente que tal disposição convém admiravelmente a tantos textos do Ofertório e do Cânon? (Mons. Klaus Gamber, “A missa de frente para Deus, p.23)
Vejam na descrição acima como é maravilhosa uma Igreja verdadeiramente ornamentada, onde os ícones mostram o esplendor da tradição e nos remete a Jerusalém celeste com toda a sua glória, levando-nos assim ao Pai.
Mas, infelizmente as novas edificações não buscam mais essa tradição, que se perdeu no Ocidente, mas ainda permanece no Oriente. O grande Liturgista Mons. Klaus Gamber em seu livro “Voltados para o senhor” descreve a situação das Igrejas que são construídas nesses tempos:
Não obstante, essas Igrejas não são casas de Deus em sentido próprio, não são um espaço sagrado, um templo do Senhor aonde seja agradável ir para adorar a Deus e lhe expressar nossas ecessidades. São salas de reunião aonde não se vai fora dos momentos dos ofícios. Assim como brincam com os “silos/depósitos de habitações” ou os “armazéns para humanos”, como são os edifícios dos bairros de periferia, a estas igrejas, em linguagem popular, às vezes se chama “silos/depósitos de almas” ou “armazéns do pater noster”. (…)”Os novos edifícios se converteram assim em símbolos de nossos tempos, e igualmente em sinal da decomposição das normas existentes e em imagem de tudo o que é caótico no universo contemporâneo Todavia, um lugar dedicado ao culto tem suas próprias leis, que não se submetem nem à moda nem às mudanças dos tempos. Como no Templo de Jerusalém, Deus habita nele de forma particular. E é aqui que se rende culto a Deus. (Mons. Klaus Gamber, “Voltados para o senhor” p.7)
De fato os novos edifícios são uma perfeita representação da decadência social e teológica da sociedade. Antes as Igrejas eram construídas de acordo com a tradição e sempre buscando o esplendor do Catolicismo, mesmo nas regiões mais pobres. Mas, hoje a Igreja deixou de ser o centro da sociedade, e pior para muitos se tornou um mero local de reunião.
Agora os arquitetos constroem sem a mínima preocupação de como deve ser uma Igreja Católica, aliás, muitos nem tem conhecimento da arte sacra. Um ótimo exemplo são as Igrejas de Brasília, onde a visão de um arquiteto ateu e marxista foi “passada para a pedra” dos templos por ele planejados, o que faz com que a arquitetura das Igrejas brasilienses seja no mínimo estranha, onde vemos Igrejas no formato piramidal e uma catedral que em nada parece com um templo Católico.
Será que voltaremos a ter o prazer de ver edificações Católicas sendo construídas devidamente orientadas e ornamentadas? Será que voltaremos a ter Igrejas que apenas sua arquitetura já nos remete a oração? Será que voltaremos a ter Igreja que para se chegar ao altar é necessário subir vários degraus como uma escalada aos céus?
A beleza e a cor das imagens estimulam minha oração. É uma festa para os meus olhos, tanto quanto o espetáculo do campo estimula meu coração a dar glória a Deus.” A contemplação dos ícones santos, associada à meditação da Palavra de Deus e ao canto dos hinos litúrgicos, entra na harmonia dos sinais da celebração para que o mistério celebrado se grave na memória do coração e se exprima em seguida na vida nova dos fiéis. (CIC I.1.1 Contemplação do ícone §1162)
Será que ao invés de uma virgem sem face soltando pipa poderemos ver uma iconografia conforme expressa o catecismo?
Ficam as perguntas e o desejo de ver Igrejas que parecem Igrejas!
Por Jefferson Nóbrega
Pax et bonvs.
[Este artigo foi tirado do blog IN PRAELIO! e, como brasiliense, concordo com tudo o que nele foi dito]

Liturgia primitiva

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“Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e dar graças, depois de ter confessado os pecados, para que o vosso sacrifício seja puro.

Aquele que está de briga com o seu companheiro não poderá juntar-se a vocês antes de se ter reconciliado, para que o sacrifício que vocês oferecem não seja profanado.

Esse é o sacrifício do qual o Senhor disse: ‘Em todo lugar e todo o tempo, seja oferecido um sacrifício puro, porque eu sou um grande Rei, diz o Senhor, e o meu Nome é admirável entre as nações'”.

Fonte: Didaqué 14, 1-3. (documento apostólico de 70 d.C.)

Foto: SINAXE